sexta-feira, 29 de abril de 2011

mais nada

Mora naquelas casas depois da vírgula
não há quase nada lá
quase nunca passa ninguém
tem um telefone que está sob ameaça de corte
pois é muito usado
mas ninguém mais liga nesse número.

não se sabe ao certo qual número é mais desconhecido
se o da casa ou o do telefone

quem lá vai está ou com pressa, ou só de passagem
ninguém aceita ficar para a janta
ou se aceita, não come quase nada
diz menos.

Ao menos os hóspedes tem obstinação
em não olhar nos olhos,
não arredam os olhos do pé da porta
e nem adentram pela porta.

Com um cuidado excessivo
faz-se de tudo para prender
a atenção do visitante,
que está apegado àquele pedaço de chão
como um passarinho numa linda manhã de primavera

a visita não atina para certas preocupações
para ela é...quase nada
após alguns intantes de nervosismo do anfitrião
a hora tão temida vem,
porém,
de toda tensão
não se percebe ...quase nada

O hóspede desvia os olhos
que já estavam colocados fora do semblante da pessoa.

Disperso, e já longe
tem um desejo imediatista
ter qualquer compromisso
para além daquela casa

ficar só, com fome e em silêncio
parece irresistivelmente melhor
do que alongar a prosa insossa
que de sentido, tem quase nada
quase não se sente a coesão das palavras
a sucessão quase incoerente de idéias
tão sem consistência quanto os assuntos de onde surgiram
a ponto de ser inverossímil
como uma maçã que nasce de uma laranjeira

os esforços que mantém o dono da casa tenso
são quase inúteis
e ele começa a ter certeza disso
quando o outro mal disfarça o quanto está interessado na conversa
quase nada...

com o pensamento disperso em um mar de banalidades
e o corpo inquieto,
começa a observar,
naquele lar desinteressante,
coisas que não tinha o habito de prestar atenção
quando ia na casa de alguém
um vazo de planta, tinta estufada na parede...

O morador conforma-se,
o que ele pode fazer para dissuadi-lo de ir embora?
quase nada...

sente-se mal,
tem a sensação que a visita só não se foi
porque esta ali obrigada

sente-se desconfortável
permanece ali a pessoa indesejada por ela mesma

a necessidade de ir cumpre-se
como uma sina determinada pelo destino
destinada àquele endereço
a que não se destina quase nada.

E o morador recebe aquele destino
tal como se recebe uma fatalidade
sente-se mais só do que antes
antes de ser visitado,
quando não vinha ninguém

além disso
mais nada



2 comentários:

  1. então, só vim aqui pegar um colhão de ar, to indo acampar. bonito o poema (nem li). abraço.

    =P

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  2. Você também não quer levar meu coração? Uma alma faz falta nesse inverno!

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