domingo, 19 de junho de 2011

Não é que doa a solidão

Não é que doa a solidão
O que dói é saber-se só
por causa do que esse saber acarreta
medo de ser assaltado por um estranho, pela necessidade,
não ter ninguém além de si mesmo para contar,
às vezes nem tanto...
de estar sem proteção
que salve de uma surra, do engano.
é vergonhoso precisar dos outros
quando não se quer ninguém por perto
porque se assemelha à uma amizade por interesse,
mas a fome que o mendigo sente ao passar pelo mercado
que exala cheiro de comida
é fome
não é interesse.
Tampouco o mendigo tem interesse na pessoa que dá esmola
e nem desprezo, pois
a despeito de tudo isso,
o seu estômago está vazio.

Não é que doa a solidão
pessoas sempre trazem consigo uma certa turbulência
que nunca convém à serena contemplação
Não é fácil contemplar quando não se está só
Tagarela-se aos ouvidos sobre o mundo
e isto afasta a atenção do que o mundo diz aos olhos
é por isso que,
embora viver a solidão seja algo doloroso,
alguém pode apreciar muito estar muito só,

porque quando se está só por muito tempo,
a ausência é demasiado longa para ser sentida,
então o mundo se torna assaz colorido

e as cores, que dançam e riem,
mas sem se deixarem capturar,
se assemelham à uma companhia

Não é que doa a solidão
não é que a companhia das pessoas seja desejada
é vergonhoso, na solidão,
precisar dos outros
é querer o auxílio de quem te abandonaria
é como ter necessidade de desprezo
é como sentir falta do abandono
ainda mais para as criaturas solitárias.

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